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23.5.17

Long Views

Long Views é um evento organizado pela Cameraland onde uma vez por mês num sábado de manhã acontece uma tertúlia com um ou dois convidados. o espaço é uma casa que comercializa todo tipo de material fotográfico, faz impressões, tem estúdio, uma pequena galeria que funciona ao longo das escadas e um café. 

esses talks que acontecem com muita regularidade aqui em Cape Town tem me ajudado muito a conhecer pessoas e descobrir trabalhos incríveis, alguns fora do mundo da fotografia. os talks são um instrumentos incrível e tão usados por aqui... há debates sobre os mais variados temas, políticos, sociais, académicos, sobre arte e muitas outras coisas. é uma ferramenta que aproxima as pessoas e mesmo que as posições e opiniões sejam diferentes, a conversa faz-nos ouvir o outro e apesar das discordâncias, se o objectivo for comum, com certeza que as divergências vão ajudar de alguma forma. 

a convidada desse mês era a fotojornalista freelancer Sumaya Hishman, que falou sobre o seu trabalho que documenta a vida do Arcebispo Desmond Tutu, que acompanhou durante anos. ela ultrapassou e mostrou a linha para por detrás da vida pública do Arcebispo, captando retratos dum homem cuja a importância e o legado transcende a África do Sul. foi desse trabalho que surgiu a exposição #TUTU, que já esteve patente em Nova Iorque e aqui mesmo em Cape Town. foi uma descoberta para mim, mais uma entre as muitas que tenho encontrado nos muitos talks que vou. 

o curador e moderador foi o Yazeed Kamaldien, outro fotojornalista freelancer que eu já conhecia o trabalho dele. antes da Sumaya falar, Yazeed apresentou outra “descoberta” para mim, Bax Elisha Dibakoane, que ao apresentar as sua imagens com objectivo de mostrar histórias de uma África Sul que nem sempre o mundo tem acesso. a imagem da surfista negra com dreadlocks não me saía da cabeça porque tinha a certeza que já tinha visto aquela foto em algum lado... e foi assim que fiz a conexão que aquele era o @dudefromsa, que já conhecia o trabalho via instagram. foi ele quem apresentou-me a Flashstock, uma plataforma tecnológica canadiana que permite a grandes marcas ter acesso ao trabalho de determinado fotografo que se encaixa no conceito da comunicação dessa marca e daí surgirem colaborações. 

no final, esses talks servem como um ponto de encontro e de partida para possíveis colaborações ou simples descobertas de trabalhos interessantes que por vezes nunca conhecemos.



22.5.17

good food and lifestyle in Sea Point

em 2015 quando vim passar férias a Cape Town deslumbrei-me com Sea Point, um lugar muito movimentado durante o dia, principalmente na altura do verão, o bairro não é cosmopolita mas com facilidade encontram-se pessoas de muitas nacionalidades, um lugar residencial-mente turístico mas com poucas atrações fora o grande calçadão junto ao mar, com jardim, parques para as crianças e grande piscina municipal. 

por estes dias o bairro ficou mais movimentado com abertura do Mojo Market (food and lifestyle), um conceito muito popular por aqui, onde num espaço se misturam mercado de rua com shopping, restauração artesanal com comida fresca e rápida, cafés, bares, pastelaria e música ao vivo, um ingrediente que nunca falta em todos os espaços do género. 

o Mojo Market fica na principal rua de Sea Point mesmo por baixo do Mojo Hotel, num conceito de open space que fazia falta ao bairro, um lugar para todas incluindo as crianças que são sempre bem-vindas. 

na quinta-feira começaram os miniconcertos Mojo Market Music, música ao vivo onde descubro sempre vozes interessantes como a da Paige Mac ou o som dos Gavin Manter Trio.

1.5.17

Freedom Day, District Six e outras descobertas

no feriado do 27 de Abril (Freedom Day) fui finalmente visitar o District Six Museum, lugar de muitas memórias de horror que se tornou numa ilha de tolerância e liberdade no meio de tanta tirania e injustiça que acontecia nos anos de apartheid. 


Pass raids were a daily feature of the lives of Africans. They took place at arbitrary times, at bus stops, railway stations, factory gates or in the dead of night during house to house searches. Along with raids came prosecutions and fears of eviction, losing your home and job and being separated from family and friends. Pass laws were another means of enforcing segregation. They had been introduced as early as 1760 by the Dutch colonial government and applied to slaves in the Cape. Subsequently, during the 19th and 20th centuries the pass laws were used to control the movement, settlement and employment of "African" people, by removing then from the urban areas when their labour was deemed redundant or not permanently required. It has been estimated that since the beginning of the 20th century more than 17 million Africans have been arrested or prosecuted under the pass laws.


ao sair do museu deparei-me com o edifício do Centro Comunitário que também faz parte do museu onde estava acontecer um Fórum Aberto e Exposição intitulada Phefumla! (Breathe!), palavra Xhosa que significa respirar. a exposição organizada por um colectivo de artistas (fotografa, speaker, poeta,etc) interessadas no trabalho artístico e intervencionista que desafia as ideias hegemónicas de protesto e activismo. 
no mesmo espaço ouve um debate aceso com intervenções extraordinariamente interessantes sobre a Descolonização da Memória Pública da Cidade, que terminou com uma performance na Grand Parade Town Square, com intervenções justamente na estátua de Edward VII, Rei do Reino Unido incluindo as Colónias Britânicas.

5.4.17

CTIJF 2017, as minhas escolhas.

melhor sorriso: Dope Saint Jude 
melhor performance: Andra Day 
melhor voz: Siya Makuzeni 
melhor momento: Tsepo Tchola

melhor descoberta: Tune Recreation Committee
 
melhores fãs: Laura Mvula
inesquecível: Nomfundo Xaluva 

no segundo dia do festival organizei-me melhor e consegui ver praticamente todas as bandas e músicos que queria, mesmo que em alguns casos não tenha tido o tempo de ficar até ao final. na verdade, o CTIJF está organizado de tal forma que é mesmo obrigatório organizar-se bem antes de ir ao festival... escolher com prioridade as performances que se quer ver e se sobrar tempo ver mais. o programa, o plano com o a localização do palco e todas informações necessárias para o público, incluindo dos músicos, constituição das bandas e em que palcos se iriam apresentar. com toda essa informação não era difícil organizar um plano de prioridades, mesmo naqueles casos de músicos que desconhecia, porque os textos de apresentação eram tão inspiradores que despertava a curiosidade de qualquer um. 

vi praticamente tudo que queria, e melhor, acredito mesmo que no dia 2 consegui ver os melhores, desde Camilo Lombard com Cape Town Showcase, Thandiswa Mazai que esgotou a sala Rosies, Soweto String Quartet ou Dope Saint Jude, um sonho que perseguia faz tempo mas que ao mudar-me para Cape Town sabia que aconteceria com mais facilidade. 
descobri a Dope Saint Jude por acaso na plataforma Soundcloud e gostei de primeira... depois, li mais sobre ela e tornei-me seguidor. rapper, produtora independente e feminista, foi dos sorrisos mais lindo do festival, provalvelmente pela felicidade de se apresentar em casa. em muitas entrevistas que li, a presença do pais é notável e sempre assume a influencia espiritual que eles tiveram nela, e antes da sua performance não fez diferente, agradeceu a presença do pai que estava no meio do público e começou com os seus Hit Politik
depois pulei com The Rudimentals, meditei com os Tune Recreation Committee, mas foi uma tal Nomfundo Xaluvo que tocou profundamente com a minha estrutura emocional... tocou piano, passou a mensagem, desfilou-se em palco com um lindo vestido (a par da sua corista) e deixou bem claro que que só escreve músicas quando tem alguma coisa para dizer sobre a sua vida e experiências. 
preparei-me para escrever muita coisa sobre a Andra Day e Laura Mvula, duas grandes descobertas que me fizeram sentir distraído e questionar-me como foi possível que elas passaram-me ao lado!!! Andra foi o meu MOMENTO de todo festival... aquilo foi mais que uma performance, aquilo foi uma conversa como ela mesmo fez questão de dizer: hoje vou contar-vos uma história. "Encontrei a minha Amy Winehouse negra!" foi o comentário que alguém deixou depois de postar uma foto dela. 
Renaissance Moon de Laura Mvula foi das coisas mais lindas que já ouvi ao vivo, uma viagem instrumental para um lugar infinito sem explicação... provavelmente foram dela os melhores fãs e talvez por isso tenha sido escolhida para fechar a festa que foi o Cape Town International Jazz Festival 2017, com muitos sorrisos, muitas lágrimas, muitos abraços e muitos suspiros por tudo de bom que se viu e ouviu.